Posted by Cyberapóstolo on Jan 3, 2009 in
Um Deus que...
Sonhei com chuva. E nessa chuva Deus falava comigo. Não falava por detrás dela nem por cima dela nem sequer por intermédio dela… era a chuva em si mesmo que constituia a linguagem do Deus que comigo falava.
A catequese moderna ensina que a oração é um diálogo com Deus. Diálogo pressupõe comunicação em ambos os sentidos mas, salvo raras e honrosas excepções, os catequistas modernos apenas conseguem incutir a ideia de um diálogo no mínimo desequilibrado, com pouca utilização do sentido Deus -> Homem (e por isso ainda dizemos que a oração é dirigida a Deus). Mas neste sonho Deus orava-me, ensopando-me com uma chuva lenta de gotas grandes e mornas, dizendo algo impossível de explicar em qualquer língua que não a dos anjos mas que me enchia de satisfação.
Posted by Cyberapóstolo on Dez 31, 2008 in
Ser adulto é...
Pois após 21 anos voltei a andar de guarda-chuva. Continua a ser irritante perdê-lo com o vento, não ver para onde ando, ter de me desviar dos outros… mas que se lixe, agora tenho um pimpolho de 13 meses à minha responsabilidade.
21 anos sem usar um guarda-chuva… se parar para pensar até parece muito tempo.
Posted by Cyberapóstolo on Dez 25, 2008 in
Geral
É Natal, Deus fez-se menino.
Devia “dizer” alguma coisa… sinto que devia. Mas estou tão vazio de ideias como afónico. Triste cristão este que passa um Natal quedo e mudo.
Posted by Cyberapóstolo on Dez 14, 2008 in
Geral
Este site/blog foi mais uma vez atacado, e desta vez até vírus encontrei. Como no dilúvio (e como tem chovido nestes dias!) apaguei tudo e recomecei.
A primeira letra desta nova criação, descaradamente imitando a Bíblia, é um B, a segunda letra dos alfabetos ocidentais (correspondendo ao hebraico bet). Ao começar o livro do Génesis com «Bereshit bara Elohim et hashamayim ve’et ha’arets» (no princípio o Senhor Deus criou o Céu e a Terra) reforça-se a ligação entre o número 2 e a Criação (muito antes dos algarismos utilizavam-se as letras para representar quantidades). Começar o relato da Criação com um B força-nos a perguntar pelo A: o que havia antes? Haverá algo por essência Primordial?
Posted by Cyberapóstolo on Jul 31, 2008 in
Mysterion
Tenho dado muito pouca atenção a este site. Tirando a limpeza de emergência que tive de fazer quando descobri que havia sido atacado e contaminado por um hacker (e que ainda não estou certo de ter erradicado totalmente) raros são os momentos em que me sinto com energia e tempo ocioso para escrever alguma coisa
.
O Tiago tem já oito meses e meio. Tem uma energia surpreendente e começa a revelar uma personalidade exigente. Mais do que carinho e bem-estar, reivindica atenção e disponibilidade. Quer brincar com, comunicar com, relacionar-se connosco. A 100%. Sorvendo tudo o que os sentidos conseguem abarcar.
Chegamos ao final do dia exaustos sim, mas agradecidos. Há uma beleza imensa em cada momento que nos é dado partilhar com o Tiago e que nos deixa esmagados de espanto. Compreender que fomos investidos como co-criadores, agentes do divino e continuadores da criação faz-nos sentir simultaneamente importantes e humildes.
É uma graça pesada e uma feliz responsabilidade ser-se Pai
Posted by Cyberapóstolo on Jul 6, 2008 in
Espiritualidade,
Filmes,
Verborreia
Às vezes os trailers têm o condão de nos fazerem esperar ansiosamente por um filme para depois darmos por nós meio desapontados à saída do cinema… mas então era só isto?
Kung Fu Panda é um filme divertido mas não é um filme que preencha a criança que há num adulto que cresceu com a excitação dos Domingos - primeiro o Lin Chung e o Kung Fu e mais tarde os Jovens Heróis de Shaolin. Sim, há as inevitáveis cenas de pancadaria com montagens dignas de Matrix e Kill Bill (ou talvez Dragonball…) mas não há a mesma intensidade épica nem a mesma densidade de caracter dos personagens.
Há, ainda assim, um conteúdo moral por trás das piadas mais ou menos inteligentes, algo que tem caracterizado a Dreamworks (embora em Shreck tenha sido melhor conseguido). É dado valor à diferença e apela-se à confiança no potencial de cada indíviduo - o panda é um patinho feio moderno, gordo, desajeitado e sem quaisquer talentos aparentes, ainda por cima insatisfeito com o rumo da sua vida e com pouca auto-estima (ou seja, um adolescente típico).
Do meio da chuva de chavões zen e da colagem à Guerra das Estrelas (o discípulo imaturo em quem ninguém acredita, o mestre que falhou ao perder o seu melhor discípulo para o mal e tem uma oportunidade de se redimir) realço dois ensinamentos do velho mestre Oogway:
- There is a saying: Yesterday is history, tomorrow is a mystery, but today is a gift. That is why we call it «the present».
- Ah, Shifu. There is just news - there is no good or bad.
Poderiam ser ensinamentos dos velhos Padres do Deserto, tão velhos e tão óbvios mas nem por isso menos verdadeiros e importantes e que é necessário relembrar. Há um pessimismo crescente entre muitos cristãos, que acham que todas as notícias são más (cada vez piores) e o futuro negro - cristãos que parecem nem confiar nem esperar (sim, a maior ainda será a caridade, mas quem consegue conceber um amor vazio de fé e esperança?).
Posted by Cyberapóstolo on Mai 5, 2008 in
Verborreia
Saída da missa. Muitos saíram antes do envio, alguns entraram apenas nesta altura (vieram apenas para o baptismo ou para as primeiras-comunhões e foram até lá fora cumprido o formalismo). Eu saio, uma vez mais incomodado com o encher-chouriços litúrgico que mistura atabalhoadamente Dia da Mãe com Acção de Graças e Missa para Crianças. Mas ao menos hoje havia organista em vez de realejo de carrossel. À minha frente uma senhora desabafa que «é tudo sempre a correr, não se respeitam as pessoas». Concordo, apesar de o comentário ser apenas dirigido à referência rápida da intenção pedida (que, por paga, recebe estatuto de serviço). Outros criticam a pobre salmista, que aos 12 anos põem a cantar como se adulta fosse. Por entre o engarrafamento na igreja, onde todos se cumprimentam e põem a conversa em dia e alguns usam os telemóveis (afinal já acabou a missa) o meu filhote de 5 meses sorri num sono inocente. Ao menos para ele a missa foi boa.
Tags: insatisfação, missa
Posted by Cyberapóstolo on Mar 25, 2008 in
Mysterion,
Politicamente corrigivel
É uma ideia muito pouco imbuída do espírito pascal mas não pude impedi-la enquanto embalava o carrinho do meu rebento de 4 meses e me esforçava por não adormecer na homília:
As missas deviam ser em autocarros…
… sempre se entra melhor com carrinhos de bebé e cadeira de rodas;
… sempre há lugares reservados e pessoas que se sentem obrigadas a dar o lugar;
… sempre há ar condicionado em vez de correntes de ar;
… sempre tem melhores equipamento sonoro e música ambiente;
… e sempre nos podemos entreter com o que passa diante da janela em vez dos olhares vítreos da assembleia de zombies que nos rodeava.
E, apesar do meu pessimismo-criticismo, aquele que estava morto ressuscitou, aleluia! A todos uma santa páscoa.
Tags: missas chata, páscoa
Posted by Cyberapóstolo on Mar 5, 2008 in
Livros
E se, nos tempos em que os animais falavam, um porco pedisse a um vegetariano que o comesse, porque só assim se sentiria realizado? O vegetariano deixaria de o ser ao cumprir o desejo do porco?
Encontrei este livro na Bulhosa do Campo Grande, numa pilha de livros em saldo - livros, saldos ee porcos constituem para mim uma combinação explosiva muito difícil de resistir, sobretudo quando num país como o nosso é tão difícil encontrar livros de filosofia de leitura fácil, simultaneamente práticos e irreverentes.
Não percebo porque não foi feita uma edição portuguesa deste livro - no meu entender é um livro excelente para recomendar a turmas de filosofia, ética, cidadania, grupos de jovens… as questões que levanta são actuais (mesmo quando levantadas pela primeira vez na Grécia ou na China antigas). São abordados temas como a clonagem, o aborto, a eutanásia, a liberdade de expressão e outras noventa e tal questões mais ou menos metafísicas similares aquelas que tanto gostávamos de levantar na adolescência e nos grupos de jovens para espicaçar as mentes aquietadas…
São 100 histórias curtas, de uma página apenas, completadas com uma pequena contextualização por parte do autor e apimentadas com algumas questões cujo objectivo não é encontrar uma resposta mas apercebermo-nos da sua complexidade.
Para quem prefere, mais do que obter respostas, saber fazer as perguntas certas, este é um livro obrigatório.
Posted by Cyberapóstolo on Mar 4, 2008 in
Reverberómano
«Logicians are not like ordinary people. When most people speak they are content that they can make themselves understood and that others will generally know what they mean, even if they put things a bit awkwardly or imprecisely at times. Logicians, on the other hand, are frustrated by the vagaries and ambiguities of everyday language. The point is, they will insist, that their apparently trivial quibbles have implications.»
Julian Baggini in The pig that wants to be eaten, p.254
Awkwardly e quibbles: mais duas palavras que me fazem cócegas na alma.